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zoneamento básico

vivo numa zona.

sim, sou virginiana. não, não sou organizada. às vezes tento. mas nem tanto.

outro dia, tropeçando em sapatos, mala vazia da última viagem, caixa de compras online,

tintas, papeis e outros quetais largados pela casa, um amigo disse que tudo bem eu ser assim,

que sou artista e artistas têm dessas. tenho licença poética para a bagunça.


vivo numa zona, outro amigo também vive na zona. mas no caso é puteiro mesmo, só que zona.

ele fala assim, como em 1927, como meus avôs, como trabalho de meretrizes, que é como

meus avôs chamavam as prostitutas. (acho). gosto desse uso da palavra, ele gosta do uso da casa.

ele se diverte na zona, eu me divirto com as zonas contadas. a zona é um direito de todos, afinal de contas. ainda que seja paga.


outra zona que não deixa barato é a paixão, que chega tirando tudo do lugar.

tira a fome tira o sono tira as coisas da frente empurra para o canto pedindo um canto.

o corpo fica uma baderna: é coração na cabeça, cabeça sei lá onde, risada fora de tom,

voz em alto e não bom som. deixa a gente sem entender nada no meio dessa

confusão danada.


também foi no meio de uma zona inexplicável que isso aconteceu: quando eu era criança,

ladrões deram um pulinho lá em casa e aí foram os tiras e viram a sala tomada por brinquedos e

quase tropeçaram e a baderna impressionou. eles reviraram bastante aqui, né?

não foram eles, seu polícia, fomos nós - eu e meus irmãos - antes mesmo da visita dos bandidos.


sempre fiz zona, sozinha ou com outras pessoas. como quando você dormiu aqui e a casa acordou

com armário torto tudo desalinhado eu desconjuntada blusa rasgada no chão.


tem bagunça que é gostosa...

tem bagunça para tudo o que é gosto:

como lavanderia depois das férias, como fim de festa, como começo de ano,

como fevereiros e alguns marços e toda 25 de março,

como pia de domingo, como prato de quilo,

como mapa de são paulo, como reunião de baratas.

tudo uma zona.

zona de conforto, que parece confortável, mas (veja bem) é uma zona.

zona T, que é uma área delimitada, mas se não controlar a coisa fica confusa.

zona urbana, que é mais bagunçada que a rural.

zona norte, zona sul, zona leste, zona oeste, que colocam o mapa em ordem.

zona equatorial, que coloca cada hemisfério no seu canto.

zona azul, que se organizar direitinho todo mundo estaciona.

zona erógena, que se organizar direitinho todo mundo transa.

zona de alta tensão, que é um perigo bagunçar por ali. zona do agrião, que no futebol é a grande área e aquele auê do faz-não-faz gol.

que na gente são as áreas baixas, com ou sem auê.

zona militar, que de baderna não pode ter nada.

zona franca, que ninguém é de ninguém.

zona eleitoral, que tem sério tem palhaço tem apelido tem famoso tem jogador tem músico, tem.

vota em quem? e a eleição americana, heim? todo mundo acompanha, ninguém entende nada

daquela confusão. voto de gente, lugar vota também, tem delegado, tem muita discussão e

muitos dias de votação. tudo pelo correio - que a gente sabe que é uma zona, lá ou aqui.


em latim, zona quer dizer área, círculo de esfera (redundante essa definição. re-dun-dan-te).

mas enquanto sinônimo de desordem ninguém sabe de onde vem.

uma zona essa zona...


tipo o mundo.

ninguém sabe bem a origem, o mapa tenta colocar ordem, tem umas coisas fora do lugar,

outras ninguém sabe explicar, às vezes é uma putaria, tem todo tipo de gente, quem tem a

lei nas mãos fica confuso... mas dá para se divertir.

e é um círculo de esfera - mas isso nem todos concordam e aí fazem um baita auê.


no fim das contas, todos estamos acostumados a viver numa zona, artistas ou não.



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