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segue a vida toda


vai reto, primeira direita, segundo farol à esquerda, segue a rotatória e aí tem uma rua com uma

borracharia na esquina - não é essa, passa duas e chegou.


entendeu, né ? você vai reto, primeira direita, segundo farol à esquerda, segue a rotatória e aí

tem uma rua com uma borracharia na esquina - não é essa, passa duas e chegou.


não uma, duas vezes. pelo menos. sempre que paramos para pedir direções na rua, a pessoa encarregada

não só explica com uma riqueza desnecessária de detalhes, como, imediatamente em seguida, repete

a informação exatamente igual uma segunda vez


já reparou?


até entendo a intenção boa por trás das minúcias descritivas, mas nessa situação, sem a oportunidade de anotar, sem a possibilidade de gravar, a gente esquece, se confunde e precisa parar na esquina seguinte para perguntar tudo de novo. o que geralmente traz outras referências e complica ainda mais.


vai reto, primeira direita, segundo farol à esquerda, cruza a avenida nova e vai ter uma papelaria verde,

depois uma farmácia e quando você avistar um prédio grande amarelo, pode virar.


e enquanto estamos nos esforçando para decorar, repetindo mentalmente a sequência de manobras, quase prendendo a respiração para evitar que o ar ocupe espaço interno e precise empurrar alguma informação

para fora, quando até o sorriso de agradecimento é difícil para não perdermos a concentração...


então,

é só ir reto, primeira direita, segundo farol à esquerda, cruza a avenida nova e vai ter uma papelaria verde, depois uma farmácia e quando você avistar um prédio grande amarelo, pode virar.


porque o solícito, por ter o controle do seu destino, assume para si uma posição de extrema responsabilidade e se dedica para desempenhar bem aquele papel para o qual foi convocado aleatoriamente na rua.


naturalmente que você se confunde, entra na rotatória, não vê a borracharia e vira duas antes da papelaria verde. eventualmente chega, possivelmente atrasado, e aí finalmente entende quando falam que

não é o destino que importa, é o caminho.


é sempre o caminho.


muito similar acontece quando estamos em um restaurante, ou algo que o valha, em busca do banheiro.

por algum motivo, a segunda porta do corredor ao fundo é sempre a cozinha ou o escritório, nunca o toalete,

nem o sanitário, ou algo que o valha. e não sabemos quem errou a direção, o apertado ou o orientador.

uma coisa é certeza: esse último, ao informar, sempre (sempre!) sorri. um pouco cúmplice

desse momento de intimidade, um pouco heroico por estar no lugar certo na hora certa

para te dar um norte.


no hospital, a diretriz é transmitida rapidamente, com a pressa de quem tem mais o que fazer do que

dar explicações. e não é que não se importem com a sua trajetória, mas existe esse senso de

você-que-cuide-da-sua-vida porque tenho outras dependendo de mim.


depois-da-catraca-segundo-elevador-quarto-andar-pega-o-outro-elevador-ou-sobe-um-lance-de-escada-e-vai-na-ala-de-maternidade.


e você, claro, não sabe o que fazer depois de pegar o segundo elevador. chega na ala errada, do prédio errado, ultrapassando limites que visitantes não podem ultrapassar. consegue nova explicação apressada com alguém que precisa cuidar de outras vida e segue. até chegar no quarto 1348-RN, conhece o hospital inteiro - que é todo igual e dá na mesma para qualquer lado que vá. ainda se fosse uma volta com coisas novas para ver...


taxista sempre soube os caminhos. verdadeiros experts. bastava entrar no carro na zona sul, falar o endereço

na zona leste, uma rua pequena, sem saída, e o motorista não pensava duas vezes, seguia direto e bastante certo de onde estava indo. e ia. e chegava. sem titubear. pelas melhores e mais livres rotas.


isso antes do waze. hoje pergunta se pode seguir o aplicativo. pode, moço. mas que saudade dessa jornada

mais instintiva, mais independente, mais genuína, mais segura.


memória boa também têm os seguranças de shopping. sabem todas as lojas de cabeça. afinal, estão ali para isso, é o que me parece. são pessoas gentis que cruzam nossos caminhos só para ajudar, cumprem a missão e imediatamente em seguida desaparecem, nunca mais os vemos.

donos de banca são ótimas pessoas para dar essa mãozinha também. mas são melhores com

referências mais locais, da vizinhança. o conhecido, o cotidiano. porque tem horas que

o familiar é a direção certa.


mas é no posto de gasolina que acontece uma coisa que gosto muito: uma dedicada junta de frentistas.

eles param tudo o que estão fazendo e, aos berros, chegam a uma conclusão de onde fica aquela loja que

o fulano do fit preto perguntou. então avaliam o destino, discutem entre si, aos berros, as melhores rotas

para chegar lá e só depois passam a orientação. não uma, duas vezes - claro. optam por seguir essa direção democrática, todos são ouvidos, todos falam. ainda que aos berros.


e o poupatempo, já foi? tem linhas coloridas no chão que te levam até a área desejada. lúdico,

um passatempo o poupatempo. uma vez que a missão é, geralmente, desagradável, que ao menos

a trilha seja divertida.


em outros países, a pessoa aleatória solicitada, engajada com o gringo desorientado, sempre acompanha até a esquina ou até o mais próximo possível do local, ainda que seja uma direção completamente oposta de onde estava indo originalmente. e só então, quando faz contato visual com o museu ou restaurante ou algo que o valha, é que passa as diretrizes - mais fácil assim, basta uma apontada e pronto, resolve sem o desgaste da comunicação verbal desencontrada. se coloca de fato no lugar do outro, empatia e compreensão na jornada alheia pelo desconhecido.


morei por muitos anos na sétima à direita depois do borba gato - aquela estátua horrorosa (em estética e

em história) ali na santo amaro. temos nossas ressalvas em relação ao monumento, mas preciso admitir que

ele quebrou um galhão para muita gente que ia me visitar. é aquela coisa de ver o lado positivo do que

cruzamos pela frente, mesmo que sejam as curvas mais acentuadas.


é isso, tem caminhos e caminhos.

e na vida, qual seguir?


pois vivemos procurando a direção no guia do passado ou recalculando rota daqui para frente. pegamos direções erradas, às vezes um trajeto maior, de vez em quando um atalho, nos perdemos e chegamos em lugares que não imaginávamos, em alguns momentos lembramos de aproveitar o visual, em outros focamos só na linha do horizonte, e assim vai… é mais ou menos por aí.


deu para entender, né?


então... vivemos procurando a direção no guia do passado ou recalculando rota daqui para frente. pegamos direções erradas, às vezes um trajeto maior, de vez em quando um atalho, nos perdemos e chegamos em lugares que não imaginávamos, em alguns momentos lembramos de aproveitar o visual, em outros focamos só na linha do horizonte, e assim vai… é mais ou menos por aí.



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