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pra titia

uma das coisas mais legais em ser tia é a possibilidade da graça banal, que é admirar

qualquer bobagem que a criança faça e divulgar a proeza a quem não-interessar possa.


é chato, mas socialmente aceitável. basta incluir a senha a minha sobrinha... e pronto,

todos toleram. e sabem o que vem pela frente, que não vão sorrir - só esticar os lábios,

que alguns vão de celular, que outros vão de banheiro, que o amigo vai com

a gentileza desinteressada crianças são ótimas nesse sentido, né?. e ela não liga porque

é tia daquela criança sagaz e o vídeo que está procurando vai provar para vocês.


mas não é sobre isso que quero falar. o motivo aqui é:


a minha sobrinha não tem nem dois anos e fala salsão.

espontaneamente.


essa é a história.


fiquei pensando em como criar uma charme em cima. inventar um personagem, dar uma filosofada,

entender a origem da palavra… mas nada ganha do fato:


minha sobrinha fala salsão.


s-a-l-s-ão.


e não tem nem dois anos!


o vocabulário básico de iniciante ela tem, claro: mamãe, papai, batata, faca, au-au, bento (que é o nome

do meu cachorro e do primo dela)… mas, sinceramente, não vejo graça. todas as crianças começam assim,

eu comecei, você começou.

titia ela já aprendeu também (e aí o coração dá até um saltinho). só que é genérico, vale para mim e

vale para todas as outras - ela deixou muitas de nós para titia.


outra palavra inesperada da minha sobrinha é mapa. em que contexto é aplicada no dia a dia de

uma criança de nem dois anos? eu não sei.

e cubo.

e mato, que é onde ela diz que quer passar o aniversário.

uma curiosa curadoria de vocábulos.


ela fala mapa...

mas, cara: ela fala salsão!!!


confesso um pouco de inveja porque, dizem as minhas próprias tias, eu demorei para soltar a voz -

lá pelos três anos.


e, quando comecei, errava tudo. por mais tempo do que o esperado, troquei o gê e o jota pelo xis,

o bê pelo pê e assim por diante. nem meu próprio nome era capaz de pronunciar: lala, me chamava.


mas a minha sobrinha fala, fala muito, fala tudo, fala muito direitinho tudo o que fala.

inclusive salsão.


a verdade é que sempre acho fofa essa fase. saem boas palavras daí.

crianças são ótimas nesse sentido, né?


minha irmã, na mesma época, adorava comer arroz-com-bife - que era o jeitinho dela dizer rosbife.

meu primo tinha paixão por carros, particularmente pelo fucas. sabe qual é?

a filha do amigo de alguém que não lembro bem quem era vestia biníqui. também vesti

naquele verão, ainda que adulta. só pelo charme...

mas nada disso é salsão.


e a minha sobrinha fala salsão.


que é celery, em inglês. esse é um ponto importante porque ela é gringa e certamente logo terá celery

no repertório, talvez até já tenha. pouco importa, o que importa é que em português ela sabe.


salsão, ela anuncia em alto e bom som.

em duas línguas, se bobear.


eu estou obcecada, eu sei. e é uma palavra fácil, sei também.

mas inesperada.


o que pode ser mais improvável que isso?


_lia, o que você comeu no café-da-manhã?

_salsão.


é realmente uma criança surpreendente.

e é minha sobrinha.


quer ver uma foto dela?




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