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ô lá em casa


lá em casa tinha um banheiro, cinco pessoas e horários que batiam.

aí, vira e mexe a lotação era total, mas com uso otimizado do espaço: minha irmã no vaso, meu pai na pia, minha mãe no chuveiro, eu no espelho, meu irmão sentado na beira da banheira esperando sua vez

para qualquer um dos outros lugares (e sempre com o violão em mãos, para entreter). as posições variavam,

o violão não saía de cena, e todos nus ou semi-nus, naturalmente.


cada um na sua, mas tudo junto e pelado,

assim era em casa.

gosto dessa cena porque é real, mas parece uma pintura surreal. um quadro psicodélico improvável e

que não é qualquer um que tem.


um quadro que meu pai teria pintado nos anos 70.


meu pai: um ex-hippie que não admite ter sido hippie. artista plástico, santista na certidão e no campeonato, arquiteto. gostava que nós, os filhos, desenhássemos nas suas costas, direto na pele. não pela pretensão de incentivar a criatividade (mas acabava incentivando), não pela distração (mas distraía), não preocupado

com a marca quase definitiva que a hidrográfica deixava (resistia por muitas semanas e banhos).

era somente e tão somente pelo gostosinho que as canetinhas faziam quando rabiscávamos.


em casa, nenhum papel largado no canto era desperdiçado, logo virava tela para algum rabisco inspirado ou escultura inesperada nas mãos do meu pai. ele ainda fazia brinquedos de papelão e criava músicas de ninar

para embalar meus irmãos, então pequenos - eu, no mesmo quarto, entrava no ritmo dele e no embalo deles.


minha mãe: arquiteta paisagista, também artista, não hippie e sim descolada, chama as pessoas pelo

nome e sobrenome porque assim é chic, mestre na arte de cozinhar. acordava às 3 da manhã toda

terça e quinta para comprar seus jardins no ceasa, sabe ressuscitar plantas, também chama qualquer

uma delas pelo nome científico - mesmo assim me proporcionou o primeiro zero na escola ao

ajudar num trabalho de botânica (o segundo e último zero veio com a mãozinha do meu pai

em um trabalho de matemática). logo descobri que o certo era cada um descobrir o mundo do seu jeito.


em casa, bolo-e-parabéns era lei imposta pela minha mãe. tem que comemorar! os bolos dela saíam invariavelmente desmoronando - uma clássica arte autoral e proprietária, porém deliciosos.

e embalados pelo ritmo do parabéns a você.


qualquer vacilo e acordávamos com as paredes desenhadas e coloridas... por eles mesmos, os adultos.


aos domingos, os dois recebiam gente. tanta gente que nem compensava fechar as portas de casa,

ficavam abertas mesmo - não destrancadas, abertas. escancaradas. entrava e saía quem quisesse.

o dia inteiro era um vai-e-vem danado de artistas plásticos, músicos, fotógrafos, estilistas, escritores…

esse era o elenco. e led zeppelin no som. bem, provavelmente muitos outros, mas led zeppelin

é o que minha memória marcou.


na frente de casa o palco era das crianças, que brincavam sem supervisão. isso até acabar

a cerveja dos adultos, aí lá íamos eu e meus irmãos, ainda sem supervisão, até a padaria

comprar a próxima rodada - nessa época, tudo bem vender álcool para menores de 18, de 15, de 10…

assim encerrávamos o fim de semana, tudo acontecendo ao mesmo tempo igual ao banheiro, mas vestidos.

uma cena com cheiro de filme b e que não é qualquer um que vê no dia a dia.


um filme que nós assistiríamos juntos.


nas noites do resto da semana, nossa familinha se reunia em outro lugar da casa, além do banheiro:

no quarto dos meus pais. a formação se repetia todo dia - na cama deles (e nessa ordem), minha mãe,

minha irmã no meinho, meu pai; meu irmão ia deitado atravessado nos pés deles; eu sentava

no chão encostada no armário ao lado. na tv, joe cocker embalava com with a little help from my friends para anunciar anos incríveis, married with children traduzia a graça do cotidiano em família,

e ainda tínhamos os contos de fadas, da tv cultura, e sua seleta especial de convidados, como liza minnelli, susan sarandon, anjelica huston, frank zappa e tantos outros artistas que entraram nas nossas vidas assim, naturalmente.


desse jeito passamos mais de 20 anos… incríveis.

uma crônica cotidiana que parece simples - e é, por isso é uma delícia de ler.


uma crônica que eu escreveria.


eu: escritora e entusiasta do estilo constrangedor de dança amadora.

e para apresentar o restante do elenco: minha irmã é desenhista anônima e tem um quê de atriz,

meu irmão ainda carrega o violão para entreter por todo canto e leva jeito para humorista.


com o tempo, meu pai saiu de casa, depois fui eu, daí meu irmão. cada um foi dançar no seu canto,

mas as portas seguem abertas a todos nós e todos dias, como eram os domingos. e dispostos

a dividir o banheiro, se preciso for. sempre juntos e junto de uma boa música.


a arte de viver lá em casa é isso: tem arte e tem viver.

(viver e deixar viver, aliás, é o lema do meu pai, aquele que diz não ter sido hippie)


aí hoje você vem, me fala sinta-se em casa e é essa cena que sinto: um espaço (tempo, local ou abraço)

onde eu possa dançar sem controlarem meus passos. e não só dançar conforme a música,

mas curtir a música à beça.


onde não me sinto assim, não fico e sigo...nessa minha melodia a dia,

de casas e asas abertas.





1 Comment


Amei!! Voltei no tempo agora com essa leitura deliciosa...ah os bolos desmoronando, mas deliciosos, o banheiro sempre disputado e ainda lembro do vidro transparente na porta do banheiro de baixo...morria de vergonha de alguém me ver rsrs....sempre todos juntos e misturados, com mto amor e respeito!! Parafraseando uma autora para lá de talentosa "Saudade é um quartinho dentro de mim onde guardo tudo de bom que já vivi"....e vivi mto com vc na minha vida, obrigada por existir👏❤️

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