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do lixo para fora



essa semana comprei dois cestos de lixo novos, um para a cozinha e um para o banheiro.

fazia tempo que os antigos me incomodavam, mas ah, é lixo... e deixava de lado para não gastar com isso. finalmente encarei. e foi uma das melhores coisas que fiz nos últimos tempos.


de cinco anos para cá, eu mudei de casa três vezes. nesse ziguezague, me desfiz de dezenas de roupas,

uma centena de livros, deixei para trás microondas e liquidificador, abri mão do forno e me restaram

só duas bocas de fogão.


deixa pra lá o carro, um marido, muitas ideias, alguns planos, outros rumos.


também mudei máquina de lavar, geladeira, cama, telefone, paixões, cortes de cabelo, atividades físicas, trabalho, operadora de internet, noites pelo dia, óculos, jeitos de ver a vida. e de levar.

coloquei uns hábitos de lado, mantive o café mas revi a quantidade, vira e mexe durmo no outro lado da cama,

às vezes passeio com meu cachorro antes do banho, tem dias que saímos só depois de comer.


vou variando o caminho da corrida, revezo o mercado, revejo a marca da geleia.


meus livros, sempre que termino de ler, passo adiante.

minhas roupas, sempre que dá cinco minutos, passo para outros.

meus filmes, sempre que irrita, passo para frente.


todo dia deixo um dia para trás. e sigo, porque dia que foi não fica, nem que a gente queira.


tanta coisa já passou, tanta coisa já abri mão, tanta deixei por aí….

menos os cestos de lixos! que seguiam por aqui, os mesmos!

já capengas, vividos, quebrados.

cinco anos, três casas, mil substituições, e os dois mesmíssimos cestos de lixo.


que apego é esse?


aí eu fui lá e comprei novos.

troquei e o que aconteceu foi algo que eu não esperava:

que sensação deliciosa...

você já comprou cestos de lixo?

compre.

é como usar uma roupa pela primeira vez, como começar um livro cheirando novo,

como abrir uma coquinha geladinha na ressaca.


tomei gosto por jogar coisa fora... mais que isso: agora arrumo motivos para jogar coisa fora. não é só

a indiscutível necessidade de limpeza, mas o prazer de abrir aquele lixinho novinho em folha e dispensar

o que não serve mais para mim. e saber que, mesmo sem servir mais para mim, seguiu um caminho bom,

novinho em folha.


a beleza do deixar ir.

a leveza do desapego.


não é desmerecer o alimento que comi, o papel que guardou anotações, o pote de shampoo que me lavou,

a flor que enfeitou enquanto viveu. tudo isso tem seu valor e teve seu papel por aqui.

e agora deixo ir.


não é desmerecer as paixões que senti, os lugares por onde passei, o que vivi. tudo isso

tem seu valor e teve seu papel por aqui.

e agora deixo ir.


lidar com essa situação é difícil, sejamos sinceros. o deixar ir geralmente envolve cutucar coisas passadas

que queríamos presentes, coisas que deram indigestão e queríamos evitar, coisas que foram saborosíssimas e queríamos mais mas pode intoxicar, coisas que nem sempre queríamos mandar embora mas não

fazem mais sentido ficar. só que tem horas que abrir mão (e espaço) é preciso.


e quando essa hora chega, que seja em um cesto lindinho para mandarmos sem dó, com a certeza de que

ele vai receber à altura aqueles pedaços de nossas vidas.


comprar um lixo novo é um respeito à nossa história.

mandar o lixo embora é um respeito ao nosso futuro.

é saber selecionar o que fica para trás, o que fica pra lá, o que fica pra gente.

para gente ficar bem. porque do lixo que acumula, o que fica é cheiro ruim.





photo by gary ghan on unsplash

1 kommentar


Peeerfeito!!! Ah, como vc escreve bem, como toca nos nossos sentimentos com cada palavra....

Gilla
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