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de existir

você gosta de morar em são paulo?

sempre morei, respondi.

e você?, perguntei.

não lembro a resposta. ou talvez nem tenha prestado atenção nele.

mas a pergunta eu nunca esqueci. ou talvez tenha finalmente prestado atenção em mim.


nasci em santos, fiquei por poucos meses e logo vim para são paulo. não por escolha.

anos mais tarde, passei em uma faculdade lá também e de cara decidi não ir. mais fácil seguir onde estava.

já morei fora do país e foi por absoluta escolha. voltei não sei porquê.

segui por aqui até hoje. sem pensar.


simplesmente moro, eu complementei.

não foi sim-eu-gosto e nem não-não-gosto.

o máximo que consegui no momento foi preencher uma não-resposta com essa constatação.

poxa, a pergunta que estou acostumada geralmente é outra,

onde você mora?,

essa é fácil: são paulo. mas um verbo a mais complicou as coisas.

você gosta?

se gosto? aí me pegou. me pegou porque nunca parei para me preocupar com isso,

só fui morando já que estava por aqui mesmo. sem pensar, sem escolher, sem saber o porquê.


ele, o dono da pergunta, certamente nem lembra da conversa.

eu também não, mas a pergunta nunca esqueci.


mais intrigante é:

como assim eu não sei se gosto do que faço todos os dias, o dia todo,

que é morar?

tododia é tempo suficiente para saber, não?

fora que morar é coisa séria, pô. mais que apenas um lugar para dormir, acordar, trabalhar, comprar…

é a sua rotina, a sua casa, quem você conhece, onde passeia com seu cachorro, com quem interage,

ao que reage, como se mostra ao mundo, como vive a vida.

quando você mora em algum lugar, você existe ali.

um mês, três dias, até que a morte separe, que seja.


morar é existir.


nunca pensei nisso, terminei a resposta assim.

o que, a essa altura, deu para ver que é sinônimo de nunca pensei meu lugar no mundo.


existir é você no mundo.


quando digo simplesmente-moro estou dizendo

que simplesmente-estou, nada além.

que não dou bola para a minha existência,

que não levo em consideração meus desejos e vontades,

que não me coloco,

quase um desistir.


o contrário de desistir é existir.

e sinônimo existir é insistir.

buscar sempre saber e defender seu espaço na vida. e em si mesmo.


insistir em existir.


desde que ele me jogou a questão, eu faço questão é de me colocar e

buscar a resposta para essa e outras perguntas - porque elas variam.

e estamos tão acostumados a fazer as coisas que, se deixar, vamos só fazendo mesmo,

sem parar para considerar se sim ou se não ou se escolhemos ou se sabemos o porquê.


você gosta do quadro que está na sua parede?

você gosta do cheiro do xampu do seu banheiro?

você gosta de almoçar no prato raso?

você gosta de amarelo?

você gosta do que você gosta?

se for sim, pois bem.

se for não, pois bem também.

respostas, sim - e nada de não-respostas.

assim eu sei de mim,

existo em mim. por escolha.

e se não gostar da resposta,

dá para mudar, ô se dá.


ok, nem sempre é possível mudar o lugar onde moramos.

mas sempre é possível mudar como existimos.

para fazer nossa existência melhor.


hoje, esse amigo está com planos de sair de são paulo porque, assim como eu,

morou aqui a vida toda sem escolha e sem certeza. e aí, morou fora por decisão própria,

voltou por embalo. e agora achou a resposta dele:

não, não gosta. e vai mudar.


se eu gosto de morar em são paulo não é agora e nem aqui que vem ao caso, mas ontem eu mudei

uns quadros na minha parede porque me dei conta de que não, não gostava como estava.

os quadros são literais, mas também simbólicos.

agora sim me sinto em casa e gosto desse lugar onde estou.


às vezes a gente precisa mudar para gostar.

ou mudar para existir.





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