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a vó maria e a vó nair

a vó maria é portuguesa, viúva e foi bisavó aos noventa e poucos anos.

desde o momento em que a menina nasceu a vó maria só chama a menina de menina.

nunca pelo nome.


a menina isso, a menina aquilo, a menina aqui, a menina, a menina, a menina.


não é falta de amor, sempre foi de uma forma muito carinhosa.

não é falta de memória, o nome nunca lhe fugiu.

não é falta de habilidade na pronúncia, palavra fácil de ler-escrever-falar-ouvir os pais escolheram.


a vó maria é minha bisavó.

a menina sou eu.

eu sou a Lara.

a vó maria sabia disso, mas simplesmente escolheu menina para evitar o desconforto de falar um

nome que não era familiar para ela. achava estranho e era desacostumada ao não usual. chamasse

algo mais cotidiano, a menina não seria menina, seria o próprio nome mais cotidiano.


a vó maria não era dada ao diferente, achava confortável o comum.

mas também não ia contra ele, apenas se calava.

Lara não soa bem? menina, então.

era assim com tudo: enquanto as coisas aconteciam, as loucuras do neto invadiam o cotidiano,

a vida ao redor girava, a vó maria não fazia alvoroço, apenas observava em silêncio.


as coisas são como são, não adianta gritar.

cada um no seu canto, dando conta da sua vida.

fale ao vento somente o necessário.

não sei qual dessas justificativas passava pela sua cabeça,

nunca disse.


lembro bem da vó maria sentada na beira do sofá, quieta sempre. camuflada também.

cheguei a achar que era muda, cheguei a achar que nem estava lá.

mas, já mais velha, descobri que estava apenas deixando o mundo acontecer.

ao contrário da vó nair, minha avó, filha da vó maria.

que sempre gostou de ir ao contrário e falar mesmo.

falar na cara, falar o que fosse.

se manifestava.

meus primeiros palavrões aprendi com ela - e dos mais cabeludos.

tinham hábito de mandar as pessoas enfiarem seus itens no rabo quando algo incomodava.

ria escandalosamente enquanto contava piadas e histórias, sempre caprichadas em absurdos.

dava opinião que ninguém pedia,

dava opinião que sequer tinha, queria mesmo era só chocar.

falava sem pensar, sem ponderar, sem esperar.


mas uma coisa não falava: eu te amo.

tão avessa a qualquer demonstração de carinho explícito,

que não gosta nem de falar a respeito.


não se via a vó nair sentada no sofá, ela vivia no gerúndio: varrendo, lavando, inventando e cantarolando, porque era assim, ao som de uma composição própria, que ela fazia as coisas.


ouvida de longe, pela risada ou pela canção, vista de longe também. com suas roupas coloridas,

seus colares imensos, sua baita cabeleira branca.

fico pensando se essa coisa peculiar de cada uma delas

é coisa de idade ou dos tempos.

se é personalidade em falta ou demasiada.

se é defesa ou ataque.

a vó maria que escolheu ser o silêncio e, assim, existiu até os 96 anos;

a vó nair que escolheu se expressar e existiu até os 98.

quem fez certo?

tem certo?


a vó maria não diria nada. com ela aprendi a observar, ouvir, ser e deixar ser,

afinal, que cada um viva como quiser.

e aí aprendi sobre a liberdade do outro.

a vó nair me mandaria enfiar essa dúvida no rabo e sairia gargalhando.

com ela aprendi a falar palavrões e a rir alto mesmo - e foda-se.

e aí aprendi sobre liberdade de si.


o certo é que cada um é o que é.

isso as duas me ensinaram.


e como não podia deixar de dar sua opinião, a última coisa na vida que a vó nair falou para mim

foi a única frase que nunca tinha falado antes: te amo, filhinha.


a vó nair sempre chamou a menina de filhinha, nunca pelo nome.






photo by dan meyers on unsplash

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